domingo, 26 de junho de 2011

Dia 8: o regresso

Directamente do comboio Intercidades Porto - Lisboa, aqui estamos para vos contar as últimas aventuras desta peregrinação!
Como sabem, ontem iniciámos a nossa viagem de regresso. Apanhámos o comboio para Vigo, onde tínhamos de passar a noite para hoje de manhãzinha apanhar o comboio para o Porto. Chegámos ao hotel (onde a simpatia do empregado ficava muito a dever à dos voluntários que nos acolhiam nos albergues) e ele indicou- nos o nosso quarto. O Lino abre a porta... E começamos a ouvir lá dentro uma mulher histérica a gritar "No, no, nooooo"! Era uma japonesa, que depois do susto de ver um marmanjão como o Lino a abrir a porta, explicou-nos entre gestos e um inglês macarrónico que também lhe tinham dado aquele quarto. Fechámos a porta e desmanchámo-nos a rir! Estava a começar bem o nosso regresso a realidade... Voltámos à recepção e o empregado reagiu ao facto como se fosse a coisa mais normal deste mundo. Deu-nos um novo cartão e lá nos enfiámos a custo - nós e as mochilas - no minúsculo elevador, em busca do quarto certo. Chegámos à porta, batemos primeiro (era melhor prevenir...) e não ouvimos nada. Só que... não conseguimos abrir a porta. Voltámos NOVAMENTE à recepção, tentámos fazer cara de zangados, mas só nos apetecia era rir... E o empregado, como se nada se passasse, deu-nos o terceiro cartão (aliás, deu-nos dois, para o caso de um deles não funcionar)!
Finalmente instalados no novo quarto, e tendo posto uma cadeira atrás da porta, não fosse entrar-nos alguém por ali adentro, decidimos ir dar uma volta pela cidade.
O termómetro marcava 40graus às seis da tarde e decidimos parar numa esplanada para beber qualquer coisa... Pedimos uma imperial e nem queríamos acreditar quando veio a conta... 4,10€!!!??? Era oficial, queríamos voltar para Santiago!
Mas por agora não pode ser... Temos mesmo de ir trabalhar amanhã... Contentamo-nos em fazer planos para a nossa próxima caminhada, que em principio será de Santiago de a Compostela a Finisterrae, onde a terra se encontra com o mar e termina de facto o Caminho de Santiago.

Em Vigo, a cidade em que quase matámos uma japonesa de ataque cardíaco :o)

sábado, 25 de junho de 2011

Ao sétimo dia, descansámos... E vimos que tudo era bom!

Bem... "descansar" não significa que tenhamos ficado a preguiçar! Significa apenas que não percorremos dezenas de kms a pé! ;o) E também que nos levantámos uma horinha mais tarde que o costume, ou seja: às sete!
Tínhamos de apanhar o comboio para Vigo às 14h30, por isso queríamos aproveitar ao máximo as últimas horas em Santiago... e "aproveitar" significou sobretudo três coisas: ir dar o abraço à estátua de São Tiago que se encontra por cima do altar-mor da Catedral, ir à Missa do Peregrino e despedirmos-nos dos nossos companheiros de Caminho... Três coisas muito especiais...
O abraço é uma tradição que todos os peregrinos cumprem, um gesto exterior que pretende demonstrar um encontro que já se deu no nosso íntimo. Quanto à missa do peregrino, é uma celebração muito forte. A Catedral estava a abarrotar com peregrinos e mochilas e, antes de começar a eucaristia, o padre enumerou todos os países de origem dos peregrinos que tinham chegado ontem. Vieram pessoas de todo o mundo, da  Austrália aos Estados Unidos, e nós lá estávamos a representar Portugal... No fim, foi acendido o turíbulo gigante (conhecido por botafumeiro) e balançado por cima das nossas cabeças, de um lado ao outro da Catedral... O fumo do incenso, que subia para o tecto, simbolizava a subida para Deus das orações de todos o peregrinos ali presentes...
Depois, foi o momento das despedidas... Quase todo o "grupo" tinha ido à missa e trocámos os contactos ali mesmo, na esperança de poder manter os laços que numa semana criámos e fortalecemos quase sem dar conta. E foi difícil dizer adeus, aos nossos companheiros e a Santiago de Compostela... Foi difícil partirmos quando ainda nos sentíamos a chegar. Mas já no comboio, à medida que íamos percorrendo ao contrário o caminho que fizemos ao longo destes dias, fomos aceitando a despedida e tomando consciência de que o Caminho de Santiago foi apenas uma parte deste Caminho maior que continuaremos a percorrer, por onde quer que passemos. E tomando consciência também de duas aprendizagens muito importantes que levamos para casa:

- Na nossa bagagem, colocamos muitas vezes coisas a mais. Isso acontece a imensos peregrinos que fazem o Caminho, e que acabam por ter de enviar algumas dessas coisas por correio de volta para casa, pois percebem que não conseguem caminhar com tanto peso... E na vida acontece o mesmo. Queremos ter tantas coisas que não só não nos fazem falta, como às vezes nos impedem de sermos felizes. Podemos fazer o Caminho, e podemos encontrar a felicidade na nossa vida, com muito pouco. E ser ainda mais felizes partilhando esse pouco!

- Nunca estamos sozinhos. Ao longo do Caminho, íamos encontrando outros peregrinos... E não houve um único que não nos cumprimentasse... Muitos deles perguntavam se estávamos bem, com um interesse verdadeiro de quem se sente nosso irmão e se preocupa connosco. Nós fazíamos o mesmo... E também nas nossas vidas é assim. Fomos feitos para nos amarmos uns aos outros, para vivermos em comunhão, e mesmo que nos sintamos sozinhos... Deus nunca nos abandona e encontra sempre maneira, com as suas "deuscidencias", de nos mostrar isso.

Dia 6: continuação :o)

De banho tomado, estendidos os sacos-cama na camarata e trocadas as botas de caminhada pelos chinelos, regressámos a Santiago. A cidade vibrava de vida, músicos tocavam em cada esquina, peregrinos descontraidos enchiam os cafés e as lojas... Havia no ar a atmosfera alegre da missão cumprida!
Comprámos alguns "recuerdos" e fomos de novo à Catedral. Ia haver missa e em seguida uma vigília para peregrinos. Ficámos para a vigília sem saber muito bem em que consistiria e não nos arrependemos.
A Catedral fechou as portas ao público, as senhoras da limpeza começaram a lavar o chão, e o cónego convidou-nos (a nós e mais uns 30 peregrinos que também ficaram) a lermos algumas passagens biblicas e partilharmos a nossa experiencia do Caminho. Depois, fez-nos uma visita guiada aos lugares mais especiais da Catedral... Demorámo-nos sobretudo junto a urna que contem os restos mortais de São Tiago, a qual se encontra fechada na cripta e só saiu de lá duas vezes, ambas em tempo de guerra, para participar em procissões em favor da paz. Existem duas chaves da cripta: uma na Catedral e a outra no Vaticano, e indicações expressas do Papa para que a urna dali não saia até ordem em contrário. Rezámos juntos o Pai Nosso, aquela que terá sido a primeira oração que São Tiago ensinou ao chegar à Península Ibérica, e cantámos a Salve Rainha, que descobrimos ter sido criada por um bispo de Santiago de Compostela e depois divulgada pelo resto do mundo. Descobrimos também que Tiago tinha uma enorme amizade e devoção por Maria, e que numa altura em que ele estava desanimado com os fracos resultados da sua evangelização e tinha decidido regressar a Israel, ela apareceu miraculosamente e incitou-o a não desistir. Esta aparição ocorreu em Saragoça, precisamente no local onde está hoje uma das mais fantásticas catedrais do mundo (que foi construída por causa dessa aparição)! Saímos da vigília ainda mais apaixonados por Santiago. O padre abencoou-nos, bem como a todas as intenções de amigos e familiares que levávamos connosco nesta peregrinação... Portanto sintam-se abençoados :o)

E pronto... Não queremos maçar-vos mais... Já vamos em dois posts para falar apenas de um dia! Ainda hoje, tentaremos voltar para contar-vos tudo sobre o Dia 7!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dia 6: de Padrón a Santiago de Compostela (24 kms)


CHEGÁMOS! E foi um dia tão intenso que é difícil resumir tudo num só post... Estamos muito cansados, mas não queríamos ir deitar-nos sem vos dizer que concluímos o Caminho e que já rezámos por vós junto ao túmulo de São Tiago. A etapa de hoje não foi fácil. Acordámos, como sempre, às seis da manhã, e às sete estávamos a caminhar. Fizemos os primeiros 20 kms até ao meio-dia, altura em que chegámos a um local onde já se conseguia avistar a Catedral. A partir daí, começaram os quatro kms mais penosos de sempre, que mais pareceram (e desconfiamos que foram) seis ou sete... tais as voltas e voltinhas que demos, sem nunca mais ver a Catedral, e sempre em ânsias de a descortinar por entre árvores ou edifícios. Ainda por cima, e ao contrário do que tínhamos previsto, quase não encontrámos outros peregrinos. Só quando chegámos ao "casco antiguo", já muito perto da Catedral, sentimos que estávamos num lugar de peregrinação,  confluência de gentes e culturas. Foi no meio de uma enorme azáfama, com pessoas por todo o lado, que entrámos finalmente na praça da Catedral... E a emoção tomou conta de nós (especialmente da Clara, que fez jus a sua fama de chorona, como seria de esperar)! Entrámos, rezámos, mas tivemos de deixar o tradicional abraço à imagem de São Tiago para amanhã, devido ao tamanho da fila... Fomos depois à Oficina do Peregrino, onde colocaram o último carimbo na nossa credencial e nos deram o diploma de conclusão do Caminho (com os nossos nomes em latim e tudo)! Sentimos um misto de orgulho e de nostalgia... Passou tão depressa... Queríamos tanto ter mais um mês de férias e ir já a seguir fazer o Caminho Francês! (Calma, mães, não vamos fazer nada disso... Por enquanto!) Com isto no pensamento, seguimos até ao ultimo albergue, a 3 kms de Santiago, em Monte do Gozo (mas já fomos de autocarro...). Junto ao albergue, passa a última etapa do Caminho Francês, e aí sim vimos dezenas e dezenas de peregrinos  passar. Ficámos particularmente surpreendidos por dois deles: um pai e um filho, sendo que o filho não teria mais de dez anos, e vinham a caminhar juntos há três dias! O miúdo estava tão animado (ou mais) do que se tivesse recebido um jogo novo para a consola! Ele é que puxava pelo pai...

Desculpem, o relato de hoje fica por aqui... Já apagaram as luzes do albergue e temos de ir dormir... Mas prometemos que amanha contamos o resto.

Continua... :o)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dia 5: de Caldas de Reis a Padrón (mais 18 quilometrozinhos)

Estamos no local onde, segundo a tradição, os discípulos de Tiago entraram na Península Ibérica, vindos por mar desde a Palestina para o sepultar. No barco, traziam o corpo do apóstolo e mártir, e colocaram as amarras à volta de um "pedron" (pedra muito grande) que aqui existia e ainda se conserva debaixo do altar mor de uma igreja perto do albergue. Este episódio deu o nome à terra e transformou-a num lugar muito especial. Como peregrinos, quando aqui chegamos, é impossível não nos sentirmos cada vez mais perto do apóstolo Tiago e, por consequência, de Jesus. Ainda por cima, celebra-se hoje a solenidade do Corpo de Cristo.


O caminho desde as Caldas até aqui ajuda a essa aproximação: muito bonito, quase sempre por dentro de bosques com árvores centenárias...




E o ambiente de fraternidade que se gerou entre os peregrinos (somos cerca de 40 a fazer as mesmas etapas há três dias) também. Estamos particularmente próximos de quatro irlandeses, quatro portugueses e um espanhol. Todos mais velhos que nós (a partir dos 45) e todos a fazer o Caminho com motivação religiosa. Mas a maioria das pessoas que encontramos desconfio que nem sabe quem foi Tiago. Grande parte vem pelo gosto da aventura, para testar as suas próprias forças, por turismo. E há inclusivamente "peregrinos" a fazer batota: percorrem as etapas de carro ou transporte e depois tentam dormir nos albergues, retirando a possibilidade aos verdadeiros peregrinos de pernoitarem por um preço mais baixo (normalmente, 5 euros por pessoa) e obrigando-os a procurar hotel, pois a lotação é pequena. Existe alguma fiscalização, mas não a suficiente... Adiante... É fantástico como aqueles que são católicos se reconhecem imediatamente entre si! Há formas obvias de reconhecimento, como por exemplo a ida à missa, onde ontem e hoje nos encontrámos. Mas também há outras mais subtis. Um dos portugueses comentou hoje que tinha percebido que éramos católicos no momento em que o cumprimentámos. "Aquele bom dia foi especial", dizia ele. E nós ficámos tão felizes... porque ser cristão é isso mesmo: conseguir fazer de cada gesto, de cada palavra, uma aventura vivida em Cristo. E mostrar a todos que o Seu Amor é uma presença que nos habita.




Ps: Temos lido atentamente todos os comentários! Perdoem se não respondemos, mas a  maioria das vezes temos de pagar roaming pela internet e não é barato, por isso usamos só o tempo estritamente necessário. Como os sítios onde paramos são pequenas vilas ou aldeias, também não temos encontrado espaços com computadores disponíveis para descarregar as fotos. Mas já está prometido que actualizaremos o blogue com imagens quando voltarmos a casa... Está quase... Amanha, é o grande dia! Já só faltam 24 kms para Santiago!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dia 4: de Pontevedra a Caldas de Reis (23 km)

Mais uma etapa cumprida! E mais uma vez conseguimos cama no albergue (que desta feita é bem mais pequeno, com apenas uma divisão onde cabem 15 beliches, cozinha, zona de estar, lavandaria e balneários)... Chamemos-lhe... acolhedor! :o)
Saímos de Pontevedra às sete, já com o pequeno-almoço tomado (tínhamos comprado leite, pão e queijo ontem numa loja chinesa) e fizemo-nos à estrada cheios de energia. Quando o passo já estava a querer desacelerar, encontrámos uns peregrinos irlandeses (ele com 65 e ela com 72 anos), frescos que nem alfaces, e fomos uns dez quilómetros na conversa (mas sempre a pensar como é que eles aguentavam aquele ritmo)!
Deixámo-los para fazer um desvio e visitar o Parque Natural do Rio Barosa. A dica foi do Padre Jorge Anselmo (que nos acompanhou em Abril na caminhada a Fátima) e ainda bem que a seguimos... Com um desvio de apenas 200 metros, encontrámos uma cascata linda, onde pudemos refrescar-nos. Por momentos, esquecemos as dores nas plantas dos pés e nos músculos e passámos a sentir dores nos ossos, de tão gelada que era a água! Soube muito bem ;o)

Depois, até Caldas de Reis, seguimos pelo meio das vinhas dos moradores locais. Nem aí as indicações do Caminho deixam de existir. Cerca de 50 em 50 metros, e sempre que existam bifurcações, aí estão as setas amarelas ou as vieiras para nos guiar. Quando fomos para Fátima, a equipa que seguia nos carros de apoio era o nosso guia e, muitas vezes, o nosso alento, quando as forcas já estavam a faltar... Aqui, no Caminho, as setas, as vieiras e as mensagens que outros peregrinos ou gente da terra inscreveram no chão ou nas paredes são sinais permanentes de que não estamos sozinhos e motivam-nos, na sua simplicidade, a continuar. 



Quanto a Caldas de Reis, é uma vila muito hospitaleira, com as suas fontes de água termal onde não podíamos deixar de banhar os pés... Numa delas, a água saia directamente a 43 graus! Não, não nos enganámos a escrever... Quase dava para fazer canja. E a verdade é que aliviava de facto as dores, às quais já nenhum dos peregrinos com quem temos caminhado escapa.


Mas as dores também fazem parte. Tal como na vida. E às vezes até são bem produtivas. Hoje, um peregrino brasileiro que esta a fazer o caminho em bicicleta comentou connosco que nas etapas entre Ponte de Lima e Valença (aquelas duas que fizemos no primeiro dia) tinha pago os seus pecados todos e ganho créditos para os próximos! Rimo-nos com ele, mas na verdade acreditamos, e experienciamos, como a dor pode ser redentora. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Dia 3: de Redondela a Pontevedra (só 18 quilometrozitos!)

Hola, guapos! O nosso dia hoje começou de forma bem doce :o) Fomos tomar o pequeno-almoço ao único café que estava aberto e a dona ofereceu-nos bolinhos (deviam ser de ontem, mas estavam bem bons)! O tempo esteve um espectáculo para andar, porque o sol andou quase sempre encoberto. Pelo caminho, encontramos agora cada vez mais peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, mas a maioria são talvez espanhóis. E as "deuscidencias" continuam... Hoje, quando parámos numa das fontes para abastecer os cantis, vimos uns óculos poisados no muro. Pensámos logo que seriam de um peregrino e decidimos levá-los connosco, pois certamente o dono iria voltar para trás à procura deles e assim não teria de percorrer tantos quilómetros. Felizmente, pensámos bem. Encontrámos o dono uns vinte minutos mais tarde: um senhor português, de sessenta anos, que não se cansou de nos agradecer. Ele estava com um grupo de mais peregrinos, precisamente numa zona em que o caminho ia passar a ser por estrada, o que é sempre mais difícil, porque o alcatrão fica muito quente e os carros e camiões fazem grandes razias...  Mas lá esta: por "deuscidencia", o senhor dos óculos sabia um atalho por dentro da floresta, que acabou por ser uma das partes mais bonitas de caminho que fizemos até agora em Espanha... Além de que, em grupo, acabamos por andar muito mais depressa. E como a etapa de hoje era mais curta, chegámos ao albergue às 13h! Passadas duas horas, as 56 camas das duas camaratas já estavam preenchidas.
Tomámos banho, lavámos a roupa, almoçámos e fizemo-nos de espanhóis, dormindo uma bela sesta...  Ja recompostos, fomos ao centro da vila comprar pensos Compeed (que têm sido a salvação  da Clara contra as bolhas), jantámos e estivemos à conversa com um peregrino veterano, de 58 anos, que fez três vezes o caminho francês (800 kms!!!) e umas quatro ou cinco o português... E nós e que somos malucos? ;o) Já combinámos que amanhã vamos com ele à missa em Caldas de Reis! 

O senhor dos óculos e o veterano dos caminhos de Santiago!