domingo, 26 de junho de 2011

Dia 8: o regresso

Directamente do comboio Intercidades Porto - Lisboa, aqui estamos para vos contar as últimas aventuras desta peregrinação!
Como sabem, ontem iniciámos a nossa viagem de regresso. Apanhámos o comboio para Vigo, onde tínhamos de passar a noite para hoje de manhãzinha apanhar o comboio para o Porto. Chegámos ao hotel (onde a simpatia do empregado ficava muito a dever à dos voluntários que nos acolhiam nos albergues) e ele indicou- nos o nosso quarto. O Lino abre a porta... E começamos a ouvir lá dentro uma mulher histérica a gritar "No, no, nooooo"! Era uma japonesa, que depois do susto de ver um marmanjão como o Lino a abrir a porta, explicou-nos entre gestos e um inglês macarrónico que também lhe tinham dado aquele quarto. Fechámos a porta e desmanchámo-nos a rir! Estava a começar bem o nosso regresso a realidade... Voltámos à recepção e o empregado reagiu ao facto como se fosse a coisa mais normal deste mundo. Deu-nos um novo cartão e lá nos enfiámos a custo - nós e as mochilas - no minúsculo elevador, em busca do quarto certo. Chegámos à porta, batemos primeiro (era melhor prevenir...) e não ouvimos nada. Só que... não conseguimos abrir a porta. Voltámos NOVAMENTE à recepção, tentámos fazer cara de zangados, mas só nos apetecia era rir... E o empregado, como se nada se passasse, deu-nos o terceiro cartão (aliás, deu-nos dois, para o caso de um deles não funcionar)!
Finalmente instalados no novo quarto, e tendo posto uma cadeira atrás da porta, não fosse entrar-nos alguém por ali adentro, decidimos ir dar uma volta pela cidade.
O termómetro marcava 40graus às seis da tarde e decidimos parar numa esplanada para beber qualquer coisa... Pedimos uma imperial e nem queríamos acreditar quando veio a conta... 4,10€!!!??? Era oficial, queríamos voltar para Santiago!
Mas por agora não pode ser... Temos mesmo de ir trabalhar amanhã... Contentamo-nos em fazer planos para a nossa próxima caminhada, que em principio será de Santiago de a Compostela a Finisterrae, onde a terra se encontra com o mar e termina de facto o Caminho de Santiago.

Em Vigo, a cidade em que quase matámos uma japonesa de ataque cardíaco :o)

sábado, 25 de junho de 2011

Ao sétimo dia, descansámos... E vimos que tudo era bom!

Bem... "descansar" não significa que tenhamos ficado a preguiçar! Significa apenas que não percorremos dezenas de kms a pé! ;o) E também que nos levantámos uma horinha mais tarde que o costume, ou seja: às sete!
Tínhamos de apanhar o comboio para Vigo às 14h30, por isso queríamos aproveitar ao máximo as últimas horas em Santiago... e "aproveitar" significou sobretudo três coisas: ir dar o abraço à estátua de São Tiago que se encontra por cima do altar-mor da Catedral, ir à Missa do Peregrino e despedirmos-nos dos nossos companheiros de Caminho... Três coisas muito especiais...
O abraço é uma tradição que todos os peregrinos cumprem, um gesto exterior que pretende demonstrar um encontro que já se deu no nosso íntimo. Quanto à missa do peregrino, é uma celebração muito forte. A Catedral estava a abarrotar com peregrinos e mochilas e, antes de começar a eucaristia, o padre enumerou todos os países de origem dos peregrinos que tinham chegado ontem. Vieram pessoas de todo o mundo, da  Austrália aos Estados Unidos, e nós lá estávamos a representar Portugal... No fim, foi acendido o turíbulo gigante (conhecido por botafumeiro) e balançado por cima das nossas cabeças, de um lado ao outro da Catedral... O fumo do incenso, que subia para o tecto, simbolizava a subida para Deus das orações de todos o peregrinos ali presentes...
Depois, foi o momento das despedidas... Quase todo o "grupo" tinha ido à missa e trocámos os contactos ali mesmo, na esperança de poder manter os laços que numa semana criámos e fortalecemos quase sem dar conta. E foi difícil dizer adeus, aos nossos companheiros e a Santiago de Compostela... Foi difícil partirmos quando ainda nos sentíamos a chegar. Mas já no comboio, à medida que íamos percorrendo ao contrário o caminho que fizemos ao longo destes dias, fomos aceitando a despedida e tomando consciência de que o Caminho de Santiago foi apenas uma parte deste Caminho maior que continuaremos a percorrer, por onde quer que passemos. E tomando consciência também de duas aprendizagens muito importantes que levamos para casa:

- Na nossa bagagem, colocamos muitas vezes coisas a mais. Isso acontece a imensos peregrinos que fazem o Caminho, e que acabam por ter de enviar algumas dessas coisas por correio de volta para casa, pois percebem que não conseguem caminhar com tanto peso... E na vida acontece o mesmo. Queremos ter tantas coisas que não só não nos fazem falta, como às vezes nos impedem de sermos felizes. Podemos fazer o Caminho, e podemos encontrar a felicidade na nossa vida, com muito pouco. E ser ainda mais felizes partilhando esse pouco!

- Nunca estamos sozinhos. Ao longo do Caminho, íamos encontrando outros peregrinos... E não houve um único que não nos cumprimentasse... Muitos deles perguntavam se estávamos bem, com um interesse verdadeiro de quem se sente nosso irmão e se preocupa connosco. Nós fazíamos o mesmo... E também nas nossas vidas é assim. Fomos feitos para nos amarmos uns aos outros, para vivermos em comunhão, e mesmo que nos sintamos sozinhos... Deus nunca nos abandona e encontra sempre maneira, com as suas "deuscidencias", de nos mostrar isso.

Dia 6: continuação :o)

De banho tomado, estendidos os sacos-cama na camarata e trocadas as botas de caminhada pelos chinelos, regressámos a Santiago. A cidade vibrava de vida, músicos tocavam em cada esquina, peregrinos descontraidos enchiam os cafés e as lojas... Havia no ar a atmosfera alegre da missão cumprida!
Comprámos alguns "recuerdos" e fomos de novo à Catedral. Ia haver missa e em seguida uma vigília para peregrinos. Ficámos para a vigília sem saber muito bem em que consistiria e não nos arrependemos.
A Catedral fechou as portas ao público, as senhoras da limpeza começaram a lavar o chão, e o cónego convidou-nos (a nós e mais uns 30 peregrinos que também ficaram) a lermos algumas passagens biblicas e partilharmos a nossa experiencia do Caminho. Depois, fez-nos uma visita guiada aos lugares mais especiais da Catedral... Demorámo-nos sobretudo junto a urna que contem os restos mortais de São Tiago, a qual se encontra fechada na cripta e só saiu de lá duas vezes, ambas em tempo de guerra, para participar em procissões em favor da paz. Existem duas chaves da cripta: uma na Catedral e a outra no Vaticano, e indicações expressas do Papa para que a urna dali não saia até ordem em contrário. Rezámos juntos o Pai Nosso, aquela que terá sido a primeira oração que São Tiago ensinou ao chegar à Península Ibérica, e cantámos a Salve Rainha, que descobrimos ter sido criada por um bispo de Santiago de Compostela e depois divulgada pelo resto do mundo. Descobrimos também que Tiago tinha uma enorme amizade e devoção por Maria, e que numa altura em que ele estava desanimado com os fracos resultados da sua evangelização e tinha decidido regressar a Israel, ela apareceu miraculosamente e incitou-o a não desistir. Esta aparição ocorreu em Saragoça, precisamente no local onde está hoje uma das mais fantásticas catedrais do mundo (que foi construída por causa dessa aparição)! Saímos da vigília ainda mais apaixonados por Santiago. O padre abencoou-nos, bem como a todas as intenções de amigos e familiares que levávamos connosco nesta peregrinação... Portanto sintam-se abençoados :o)

E pronto... Não queremos maçar-vos mais... Já vamos em dois posts para falar apenas de um dia! Ainda hoje, tentaremos voltar para contar-vos tudo sobre o Dia 7!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dia 6: de Padrón a Santiago de Compostela (24 kms)


CHEGÁMOS! E foi um dia tão intenso que é difícil resumir tudo num só post... Estamos muito cansados, mas não queríamos ir deitar-nos sem vos dizer que concluímos o Caminho e que já rezámos por vós junto ao túmulo de São Tiago. A etapa de hoje não foi fácil. Acordámos, como sempre, às seis da manhã, e às sete estávamos a caminhar. Fizemos os primeiros 20 kms até ao meio-dia, altura em que chegámos a um local onde já se conseguia avistar a Catedral. A partir daí, começaram os quatro kms mais penosos de sempre, que mais pareceram (e desconfiamos que foram) seis ou sete... tais as voltas e voltinhas que demos, sem nunca mais ver a Catedral, e sempre em ânsias de a descortinar por entre árvores ou edifícios. Ainda por cima, e ao contrário do que tínhamos previsto, quase não encontrámos outros peregrinos. Só quando chegámos ao "casco antiguo", já muito perto da Catedral, sentimos que estávamos num lugar de peregrinação,  confluência de gentes e culturas. Foi no meio de uma enorme azáfama, com pessoas por todo o lado, que entrámos finalmente na praça da Catedral... E a emoção tomou conta de nós (especialmente da Clara, que fez jus a sua fama de chorona, como seria de esperar)! Entrámos, rezámos, mas tivemos de deixar o tradicional abraço à imagem de São Tiago para amanhã, devido ao tamanho da fila... Fomos depois à Oficina do Peregrino, onde colocaram o último carimbo na nossa credencial e nos deram o diploma de conclusão do Caminho (com os nossos nomes em latim e tudo)! Sentimos um misto de orgulho e de nostalgia... Passou tão depressa... Queríamos tanto ter mais um mês de férias e ir já a seguir fazer o Caminho Francês! (Calma, mães, não vamos fazer nada disso... Por enquanto!) Com isto no pensamento, seguimos até ao ultimo albergue, a 3 kms de Santiago, em Monte do Gozo (mas já fomos de autocarro...). Junto ao albergue, passa a última etapa do Caminho Francês, e aí sim vimos dezenas e dezenas de peregrinos  passar. Ficámos particularmente surpreendidos por dois deles: um pai e um filho, sendo que o filho não teria mais de dez anos, e vinham a caminhar juntos há três dias! O miúdo estava tão animado (ou mais) do que se tivesse recebido um jogo novo para a consola! Ele é que puxava pelo pai...

Desculpem, o relato de hoje fica por aqui... Já apagaram as luzes do albergue e temos de ir dormir... Mas prometemos que amanha contamos o resto.

Continua... :o)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dia 5: de Caldas de Reis a Padrón (mais 18 quilometrozinhos)

Estamos no local onde, segundo a tradição, os discípulos de Tiago entraram na Península Ibérica, vindos por mar desde a Palestina para o sepultar. No barco, traziam o corpo do apóstolo e mártir, e colocaram as amarras à volta de um "pedron" (pedra muito grande) que aqui existia e ainda se conserva debaixo do altar mor de uma igreja perto do albergue. Este episódio deu o nome à terra e transformou-a num lugar muito especial. Como peregrinos, quando aqui chegamos, é impossível não nos sentirmos cada vez mais perto do apóstolo Tiago e, por consequência, de Jesus. Ainda por cima, celebra-se hoje a solenidade do Corpo de Cristo.


O caminho desde as Caldas até aqui ajuda a essa aproximação: muito bonito, quase sempre por dentro de bosques com árvores centenárias...




E o ambiente de fraternidade que se gerou entre os peregrinos (somos cerca de 40 a fazer as mesmas etapas há três dias) também. Estamos particularmente próximos de quatro irlandeses, quatro portugueses e um espanhol. Todos mais velhos que nós (a partir dos 45) e todos a fazer o Caminho com motivação religiosa. Mas a maioria das pessoas que encontramos desconfio que nem sabe quem foi Tiago. Grande parte vem pelo gosto da aventura, para testar as suas próprias forças, por turismo. E há inclusivamente "peregrinos" a fazer batota: percorrem as etapas de carro ou transporte e depois tentam dormir nos albergues, retirando a possibilidade aos verdadeiros peregrinos de pernoitarem por um preço mais baixo (normalmente, 5 euros por pessoa) e obrigando-os a procurar hotel, pois a lotação é pequena. Existe alguma fiscalização, mas não a suficiente... Adiante... É fantástico como aqueles que são católicos se reconhecem imediatamente entre si! Há formas obvias de reconhecimento, como por exemplo a ida à missa, onde ontem e hoje nos encontrámos. Mas também há outras mais subtis. Um dos portugueses comentou hoje que tinha percebido que éramos católicos no momento em que o cumprimentámos. "Aquele bom dia foi especial", dizia ele. E nós ficámos tão felizes... porque ser cristão é isso mesmo: conseguir fazer de cada gesto, de cada palavra, uma aventura vivida em Cristo. E mostrar a todos que o Seu Amor é uma presença que nos habita.




Ps: Temos lido atentamente todos os comentários! Perdoem se não respondemos, mas a  maioria das vezes temos de pagar roaming pela internet e não é barato, por isso usamos só o tempo estritamente necessário. Como os sítios onde paramos são pequenas vilas ou aldeias, também não temos encontrado espaços com computadores disponíveis para descarregar as fotos. Mas já está prometido que actualizaremos o blogue com imagens quando voltarmos a casa... Está quase... Amanha, é o grande dia! Já só faltam 24 kms para Santiago!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dia 4: de Pontevedra a Caldas de Reis (23 km)

Mais uma etapa cumprida! E mais uma vez conseguimos cama no albergue (que desta feita é bem mais pequeno, com apenas uma divisão onde cabem 15 beliches, cozinha, zona de estar, lavandaria e balneários)... Chamemos-lhe... acolhedor! :o)
Saímos de Pontevedra às sete, já com o pequeno-almoço tomado (tínhamos comprado leite, pão e queijo ontem numa loja chinesa) e fizemo-nos à estrada cheios de energia. Quando o passo já estava a querer desacelerar, encontrámos uns peregrinos irlandeses (ele com 65 e ela com 72 anos), frescos que nem alfaces, e fomos uns dez quilómetros na conversa (mas sempre a pensar como é que eles aguentavam aquele ritmo)!
Deixámo-los para fazer um desvio e visitar o Parque Natural do Rio Barosa. A dica foi do Padre Jorge Anselmo (que nos acompanhou em Abril na caminhada a Fátima) e ainda bem que a seguimos... Com um desvio de apenas 200 metros, encontrámos uma cascata linda, onde pudemos refrescar-nos. Por momentos, esquecemos as dores nas plantas dos pés e nos músculos e passámos a sentir dores nos ossos, de tão gelada que era a água! Soube muito bem ;o)

Depois, até Caldas de Reis, seguimos pelo meio das vinhas dos moradores locais. Nem aí as indicações do Caminho deixam de existir. Cerca de 50 em 50 metros, e sempre que existam bifurcações, aí estão as setas amarelas ou as vieiras para nos guiar. Quando fomos para Fátima, a equipa que seguia nos carros de apoio era o nosso guia e, muitas vezes, o nosso alento, quando as forcas já estavam a faltar... Aqui, no Caminho, as setas, as vieiras e as mensagens que outros peregrinos ou gente da terra inscreveram no chão ou nas paredes são sinais permanentes de que não estamos sozinhos e motivam-nos, na sua simplicidade, a continuar. 



Quanto a Caldas de Reis, é uma vila muito hospitaleira, com as suas fontes de água termal onde não podíamos deixar de banhar os pés... Numa delas, a água saia directamente a 43 graus! Não, não nos enganámos a escrever... Quase dava para fazer canja. E a verdade é que aliviava de facto as dores, às quais já nenhum dos peregrinos com quem temos caminhado escapa.


Mas as dores também fazem parte. Tal como na vida. E às vezes até são bem produtivas. Hoje, um peregrino brasileiro que esta a fazer o caminho em bicicleta comentou connosco que nas etapas entre Ponte de Lima e Valença (aquelas duas que fizemos no primeiro dia) tinha pago os seus pecados todos e ganho créditos para os próximos! Rimo-nos com ele, mas na verdade acreditamos, e experienciamos, como a dor pode ser redentora. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Dia 3: de Redondela a Pontevedra (só 18 quilometrozitos!)

Hola, guapos! O nosso dia hoje começou de forma bem doce :o) Fomos tomar o pequeno-almoço ao único café que estava aberto e a dona ofereceu-nos bolinhos (deviam ser de ontem, mas estavam bem bons)! O tempo esteve um espectáculo para andar, porque o sol andou quase sempre encoberto. Pelo caminho, encontramos agora cada vez mais peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, mas a maioria são talvez espanhóis. E as "deuscidencias" continuam... Hoje, quando parámos numa das fontes para abastecer os cantis, vimos uns óculos poisados no muro. Pensámos logo que seriam de um peregrino e decidimos levá-los connosco, pois certamente o dono iria voltar para trás à procura deles e assim não teria de percorrer tantos quilómetros. Felizmente, pensámos bem. Encontrámos o dono uns vinte minutos mais tarde: um senhor português, de sessenta anos, que não se cansou de nos agradecer. Ele estava com um grupo de mais peregrinos, precisamente numa zona em que o caminho ia passar a ser por estrada, o que é sempre mais difícil, porque o alcatrão fica muito quente e os carros e camiões fazem grandes razias...  Mas lá esta: por "deuscidencia", o senhor dos óculos sabia um atalho por dentro da floresta, que acabou por ser uma das partes mais bonitas de caminho que fizemos até agora em Espanha... Além de que, em grupo, acabamos por andar muito mais depressa. E como a etapa de hoje era mais curta, chegámos ao albergue às 13h! Passadas duas horas, as 56 camas das duas camaratas já estavam preenchidas.
Tomámos banho, lavámos a roupa, almoçámos e fizemo-nos de espanhóis, dormindo uma bela sesta...  Ja recompostos, fomos ao centro da vila comprar pensos Compeed (que têm sido a salvação  da Clara contra as bolhas), jantámos e estivemos à conversa com um peregrino veterano, de 58 anos, que fez três vezes o caminho francês (800 kms!!!) e umas quatro ou cinco o português... E nós e que somos malucos? ;o) Já combinámos que amanhã vamos com ele à missa em Caldas de Reis! 

O senhor dos óculos e o veterano dos caminhos de Santiago!


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dia 2: de Valença a Redondela (33 km!)

Olá! O post de hoje tem de ser curtinho, porque o dia já vai muuuuuito comprido e precisamos mesmo de descansar. 


Espanha à vista!

Saímos de Valença às sete da manhã, e poucos minutos depois estávamos em Espanha, onde Ele nos tinha preparado mais um presente: no convento das Clarissas, em Tui, estavam a celebrar missa! Ficámos mais um pouco e rezámos a oração de santo Inácio: "Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória e o meu entendimento, toda a minha vontade e tudo o que eu possuo. Vós mo destes, a Vós o restituo". Esta é uma das nossas orações preferidas e reflecte muito bem o espirito com que fazemos o Caminho. Claro que também é muito especial sabermos que vamos estar junto ao túmulo de alguém que foi amigo íntimo de Jesus. E que os trilhos que estamos a percorrer já foram percorridos por milhares de pessoas, ao longo de mais de dez séculos... Por isso, nada há a temer. O segredo é mesmo entregarmo-nos. Como hoje, por exemplo, em que fizemos mais duas etapas complicadas, debaixo de um sol abrasador... Chegámos ao albergue muito cansados e já não havia camas... Mas confiámos que encontraríamos um sítio para dormir... Uma peregrina que percebeu que não sabíamos onde ficar veio logo ter connosco e disse-nos que havia outro albergue em Redondela, um pouco mais caro, mas que podia ser uma opção para nós... Chegámos ao dito albergue e não havia ninguém na recepção. Tocámos a todas as campainhas que existiam e nada... De repente, vemos que está um número de telefone na porta. Ligamos, com a respiração em suspenso............ E um senhor diz-nos do outro lado que existem duas camas livres (as últimas)! Não chamamos a isto sorte :o)


domingo, 19 de junho de 2011

Dia 1: de Ponte de Lima a Valença (37Km!!!)



Atenção, atenção, peregrinos e potenciais peregrinos: se estão a pensar fazer o Caminho de Santiago, sejam mais sensatos do que nós e não façam duas etapas apenas num dia... Sobretudo ESTAS etapas (de Ponte de Lima a Rubiães e de Rubiães a Valença). Estamos estafados! Nunca tínhamos feito subidas com um ângulo de quase 90 graus como hoje. Mais parecia escalada! Saímos da pousada às 6h55 e chegámos a Rubiães quase as 13h! No albergue, bem nos tentaram convencer a não continuar, mas vocês já sabem como nós somos casmurros... :o) "Só" faltavam 18 km para Valença... Onde nos esperava uma recompensa! (Realmente, Deus não dá ponto sem nó...) Quando já temíamos chegar tarde demais para arranjar camas no albergue de peregrinos, eis senão quando não só arranjamos camas, como nos deram um quarto com casa de banho privativa! Quanto não vale ter uma aliança no dedo, hein?! O casamento só traz vantagens! Entretanto, apesar das dores nos pés (Clara) e nos ombros (Lino), não podíamos estar mais felizes... O Caminho é LINDO em todos os sentidos. Andamos quase sempre pelo meio de florestas encantadas... Parece que estamos num filme do Senhor dos Anéis! As pessoas que encontramos são também encantadoras e a interacção entre os peregrinos é muito mais intensa do que no Caminho para Fátima. Como há muitas pessoas a caminhar sozinhas ou aos pares, naturalmente vamo-nos juntando, conversando e entreajudando. Particularmente nas subidas, hehehe! Hoje, já conhecemos um coreano, um espanhol, cinco nortenhos e um francês. Incrível o alcance de Santiago... Incrível como São Tiago continua, passados 2000 anos, a evangelizar e a transformar vidas. Nos já sentimos a nossa "paisagem interior" a mudar... Se soubessem como é bom sair do nosso comodismo habitual, demorar um dia inteiro a fazer 40 kms, chegar ao albergue, estender o saco cama e ir lavar a roupa no tanque! Compreendemos que pode ser difícil acreditar, mas... Que tal virem EXPERIMENTAR?

Ps: como já devem ter percebido, depois daquela aventura toda para podermos descarregar as fotos, acabámos por não conseguir colocá-las aqui no blogue :( mas prometemos fazê-lo assim que regressarmos (bem como rever os acentos e falta deles!)

Ps2: muito obrigada por todos os comentários e por caminharem ao nosso lado... Sentimos intensamente a vossa presença e rezamos por vocês.

Lembram-se das conchas que levámos connosco?...

... Juntámos-lhes um pouco de cimento e deixámos a nossa marca no Caminho!


sábado, 18 de junho de 2011

Dia 0: de Lisboa a Ponte de Lima (em comboio!)

O despertar foi as sete da manha, depois de nos termos deitado perto das três! Mas, para compensar, em casa dos pais do Lino esperava-nos um fantástico pequeno-almoço de aniversario, com direito a novo bolo! Tivemos também direito a boleia ate ao Oriente e recuperamos parte do sono perdido durante a viagem no Intercidades. No banco ao nosso lado, reconhecemos uma cara familiar... era uma das peregrinas que tinha ido connosco a Fátima... Incrível!
Trocamos de comboio no Porto e seguimos em direcção a Viana, para depois apanhar um autocarro ate Ponte de Lima. E foi aí que começamos a sentir a hospitalidade nortenha. Não sabíamos onde era a paragem do autocarro... Houve logo uma rapariga que se prontificou a guiar-nos ate lá. Depois, ao chegar a Ponte de Lima, perguntamos ao motorista qual o melhor caminho para a Pousada da Juventude... Houve logo um colega dele que nos disse para entrarmos no seu autocarro e nos levou lá de borla... Mais tarde, depois de corrermos Ponte de Lima a procura de um computador com entrada USB para descarregar as fotos, reparamos num miúdo com não mais que  12 anos sentado numa esplanada com um portátil no colo. Explicamos-lhe a nossa dificuldade e ele diz logo que nos empresta o computador! A serio, e mesmo reconfortante sentir o que de melhor há nas pessoas...
E já agora, por falar em descarregar fotos, aproveitamos para explicar que trouxemos connosco um iPad, que para poder ser ligado a câmara precisa de um kit que se encontra esgotado ha dois meses, pelo que só quando tivermos a sorte que tivemos hoje poderemos mostrar-vos algumas fotos... ah, e temos internet no IPad, mas não sabemos muito bem como funcionara em Espanha. Alem da falta de acentos, como ja devem ter reparado. Enfim, prometemos dar o nosso melhor para vos manter actualizados. Agora, esta na hora da caminha. O despertar amanha e as seis!
Em Ponte de Lima... tivemos de provar o verde tinto, é claro!

De mochilas aviadas... e alguém que está a ficar cota! :o)

Sim, nós sabemos... já devíamos estar na caminha. Mas há sempre aqueles afazeres de última hora, e a verdade é que não temos muito sono! Como podem ver, as mochilas estão à porta. A balança diz que não ultrapassam os 8 quilos cada, mas a avaliar pela dificuldade que sentimos ao levantá-las do chão, suspeitamos que está avariada. Ou então somos nós que estamos em baixo de forma... Daqui a umas horinhas, apanhamos o comboio para Ponte de Lima. O caminho propriamente dito só o começamos no domingo. Até porque hoje o Lino merece relaxar um bocadinho: é o dia do aniversário dele!!! E para já não se pode queixar... teve direito a bolo logo à meia-noite! Sim, ele merece! PARABÉNS, AMOR!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Com bichos carpinteiros!

Faltam 3 dias e os bichos carpinteiros dão cada vez mais comichão :o)
Entre deixarmos tudo organizado nos nossos empregos e tratarmos dos últimos preparativos para a viagem, sobram poucos momentos para relaxar. E mesmo quando paramos, as nossas mentes e os nossos corações continuam a mil. É a ansiedade a crescer, a vontade de partir já, e ao mesmo tempo as dúvidas e os receios. Será que vamos conseguir lá chegar? Repetiremos a façanha das zero bolhas nos pés como na peregrinação a Fátima? Desta vez, não teremos carros de apoio, não teremos um grupo de peregrinos e amigos connosco, não teremos o Pe. Jorge com o seu dom da palavra para nos ajudar a sentir que Jesus caminha sempre ao nosso lado e, se for preciso, pega-nos ao colo...
Obrigada a todos os que já comentaram o blogue e nos fizeram chegar mensagens de apoio! É mesmo muito bom podermos levar-vos connosco.
O que também levaremos e estivemos hoje a preparar são as nossas vieiras. Apanhámo-las no Verão passado na Meia Praia, em Lagos, quando ainda nem sonhávamos fazer o Caminho. Estiveram na arrecadação, fechadas num saco, até ontem. E quando as encontrámos, uma cor-de-rosa e outra cinzenta, no meio de todas as outras conchas que tínhamos apanhado, percebemos que afinal o nosso Caminho já tinha começado há mais tempo... nós é que não sabíamos.
Mas porque as levamos connosco? As vieiras são um símbolo indissociável de Santiago de Compostela e abundam nas rias da Galiza. Antigamente, eram elas que serviam de credencial para os peregrinos que faziam o Caminho. E o seu significado profano é o de protecção e boa sorte na viagem. Conta-se que um peregrino seguia a cavalo, quando repentinamente o animal disparou em direcção ao mar. Assustado, o peregrino pediu socorro a Santiago e uma forte onda devolveu-o a terra firme. Retomada a consciência, o peregrino percebeu que seu manto estava repleto de conchas.
As nossas irão penduradas nas mochilas. As outras conchas também as levaremos. Mais tarde, verão para quê... ;o)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

É oficial: somos peregrinos credenciados!

Faltam 4 dias... e estamos cada vez mais ansiosos.
O Caminho chama por nós!
Já estendemos uma manta no chão do quarto onde começámos a espalhar tudo o que precisamos de levar. As mochilas, que estreámos numa caminhada no fim-de-semana passado, têm capacidade para 40 litros. Mas estamos determinados a não as encher até ao limite. Pelo que pesquisámos e ouvimos de peregrinos experientes, não podemos ter mais de nove quilos às costas, caso contrário... o corpo é que paga. O que significa que não podemos levar muito mais do que duas mudas de roupa, mini artigos de higiene, mini farmácia, mini sacos cama, mini toalhas de banho (aquelas da Decathlon que são ultra-rápidas a secar) e o belo do sabão azul e branco, é claro.
O que também não pode faltar são as nossas Credenciais do Peregrino, que chegaram segunda-feira pelo correio.


Foi com emoção que abrimos o envelope enviado pela Associação Confraria de São Tiago "Espaço Jacobeus". Estas credenciais certificam que fazemos o caminho com sentido cristão, ou pelo menos numa atitude de busca espiritual, e permitem-nos o acesso aos albergues de peregrinos que existem ao longo do Caminho e onde contamos pernoitar. Deve ser carimbada pelo menos duas vezes ao dia nos lugares onde passamos, para comprovar que de facto estamos a fazer a peregrinação. O último carimbo será, se Deus quiser, em Santiago de Compostela. Lá dentro, está a benção medieval do peregrino... E hoje terminamos com um excerto:

"[Senhor Jesus, sê para os peregrinos:] companheiro na marcha, guia nos cruzamentos, albergue no caminho, sombra no calor, luz na obscuridade, consolo nos seus desalentos e firmeza nos seus propósitos".

Amen :o)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Seja bem-vindo quem vier por bem... e quem quer viajar connosco

Adoramos contagens decrescentes e aquele nervoso miudinho bom a elas associado :) Então se forem contagens decrescentes para começar uma viagem... melhor ainda!
Hoje, faltam precisamente 5 dias para começarmos a nossa viagem a pé desde Ponte de Lima até Santiago de Compostela. Depois do "treino" que fizemos em Abril, peregrinando a pé desde a Amadora até Fátima, não podíamos estar mais entusiasmados!
Aprendemos que não há melhor forma de viajar, conhecer o mundo, conhecer as outras pessoas e a nós próprios, do que viajar a pé.
Mas, mais do que viajantes a pé, somos peregrinos. E peregrinar não é apenas deslocarmo-nos de um lado para o outro, palmilhar quilómetros... Peregrinar, além da deslocação exterior, implica uma deslocação interior. Como dizia o Pe. Jorge Anselmo, que nos acompanhou no caminho até Fátima, peregrinar é "deixar que, à medida que a paisagem por onde passamos vai mudando, a paisagem dentro de nós também mude".
Assim esperamos que aconteça connosco neste Caminho de Santiago.
Temos apenas uma semana de férias, daí partirmos de Ponte de Lima e não de mais longe, como gostaríamos. Talvez mais tarde, quem sabe?... Para já, prevemos fazer cerca de 160Km em seis dias. Querem acompanhar-nos? Prometemos ir aparecendo por aqui para relatar tudo, assim a parca tecnologia que levamos connosco colabore (e nos sobrem energias ao final de cada etapa)! :o)